quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Hid (Trecho 2)


Qual é a diferença entre o cara que me ensinou a andar numa caminhonete velha de família quando eu ainda nem era adolescente com o cara que me trancou no porão e me acorrentou num pilar de ferro? A diferença entre o homem que ensinou a me barbear com o homem que pegou qualquer coisa dura e a usou contra as minhas costas até me deixar encharcado em vermelho? Entre a pessoa que me ajudava a dormir, que me ensinava sobre a vida e que me amava acima de tudo com essa pessoa que me deixou faminto por dias enquanto alternava para os membros ainda não feridos, roxos ou inchados?
Não sei se sinto mais dor, a dor faz parte de mim nesse momento, chega uma hora que sua pele simplesmente se desgruda da carne e fica tão rígida que você perde boa parte da sensibilidade.
Minhas feridas já cicatrizavam... As mais antigas, as mais físicas. Agora elas davam boas vindas às novatas já não tão sofridas e ainda avermelhadas. Crostas de poeira salgadas pelas lágrimas são bem vindas, como uma capa extra, se não coçassem tanto eu as deixaria por mais tempo. Só que isso importava mais, esse prurido não era mais em uma área isolada em mim, era o meu corpo.
Às vezes esse cara me desacorrentava e me dava água e comida com gosto de lama. Eu não tinha mais fome, porém tinha um vazio no meu peito, sinto que alguém me tirou algo muito importante. Algo essencial. Essa dor anestesiava o resto. Como numa sala escura e uma lâmpada no meio, o buraco no meu peito estava iluminado e os monstros ao meu redor simplesmente estavam no escuro e não podia vê-los, por mais que eu soubesse que eles estavam ali.
Por favor, alguém pode me dizer qual é a diferença entre aquele quem me ensinou a ser um homem, me ensinou a trabalhar para ajudar no sustento da minha família humilde, me defendeu contra as monstruosidades do mundo, me deu forças quando meus olhos ficavam vermelhos e me alegrou quando nada mais no mundo tinha graça? Entre esse que balbucia em uma linguagem inaudível, que tira sangue de lugares que eu achava que já não era possível, que me jogou nesse buraco escuro e me trancou até perder a noção do tempo.
Por favor, me diga você, pois eu não consigo lembrar.

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